Des-Controlo

Por Sara

A partir de hoje não me designo mais como vegana.

Quando decidi fazer a transição do vegetarianismo para o veganismo, há quase 2 anos atrás, anunciei ao mundo a minha decisão e, conscientemente, tranquei-me numa gaiola. Eu sabia que o rótulo me iria atar uma bola de chumbo ao pé e me ia enjaular mas eu queria estar enjaulada.

Na época trabalhava num local que me deixava profundamente infeliz e este foi como um grito do Ipiranga para mim. Além da óbvia preocupação com os animais, o ambiente e a saúde, que ainda mantenho, eu queria fazer parte de algo maior, algo mais limpo e puro, queria belong. Desde sempre senti que este era o caminho “certo” e que entrar nele era “a” forma de me purificar.

Durante estes 2 anos fiz um detox de muita coisa, física e emocionalmente. Mas alguns traços de personalidade mantinham-se. Eu era a primeira a criticar pessoas que tinham sido vegetarianas ou veganas e deixado de o ser, pensava “já tinham conseguido chegar à parte mais difícil, como abandonar isso agora?!”. A vida dá voltas…

Declarar que não sou mais vegana não significa que muito vá mudar na minha forma de me alimentar ou agir; não significa muito menos respeito pelo outro mas significa muito mais respeito por mim mesma.

Porque não viemos ao mundo para viver em restrição.

Porque as nossas crenças não devem trazer-nos sofrimento.

Porque nós também somos animais dignos de compaixão.

Decidi não estar constantemente preocupada sobre como me vou conseguir alimentar onde quer que vá.

Decidi ouvir o meu corpo, confiar nos meus instintos e fluir.

Isto não é uma desculpa para comer gelados de leite à fartazana; até porque eu não preciso de me justificar ou pedir desculpas a quem quer que seja. Se desiludi alguém, lamento por quem se deixou iludir. Aos cépticos digo: isto não é o fim de nada, é o princípio.

Escrevo-vos agora porque este é o meu novo grito de Ipiranga: já não preciso de estar fechada nessa caixa. Posso ser como tiver que ser, simplesmente sendo. E quando não puder/ quiser, vou ser diferente e não me vou sentir culpada. 

Decidi ser leve, viver leve. Eu precisava desesperadamente de controlar o que ingeria, e isso não se aplicava só a alimentos de origem animal mas também a processados, açúcar, glúten… ao que assistia na televisão, ao que lia, com quem convivia. Tinha medo de tudo o que pudesse ser tóxico, não tinha capacidade de lidar com nada disso.

Já não tenho mais medo.

Sinto-me livre agora, e com essa liberdade vem o peso da responsabilidade de me esforçar por me manter fiel ao que acredito, mas sem obrigações. Fazer pelos motivos certos, não porque tem que ser. Já não estou no controlo mas não porque o perdi – larguei-o.

10 comentários
  • Patrícia Zen
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    Aaaaaah que bom lêr coisas assim! Não porque deixaste de ser vegan – isso é uma opção tua e pessoal, a qual eu não posso criticar – mas sim pela coerência. Sim, coerência é a minha palavra do dia de hoje. Mas coerência connosco, com o mundo pouco importa, cada um toma conta de si. Mas eu preciso ser fiel a mim e tu a ti. Por isso parabéns por teres chegado a um ponto em que podes ser e fazer o que quiseres desde que coerente e consciente contigo mesma. PUMBAS! eheheh

    • Sara
      Responder

      normalmente são os velhotes que dizem “cheguei a uma idade em que digo o que bem me apetecer!!” ahahah mas na verdade sempre tivemos esse poder só não nos permitimos usá-lo 😉

  • Ana Paula Cargaleiro
    Responder

    Acho bem eu levo te uns ovos de galinhas felizes

    • Sara
      Responder

      Já estranho muito a textura! 😛 Mesmo sendo de galinhas felizes 😀

  • André
    Responder

    Fantástico Sara! Obrigado, de coração!
    O movimento deve ser esse mesmo, de respeito pelo corpo, pelas necessidades dele e por ter também prazer nas coisas que fazemos (e comemos!).

    Nunca me considerei vegetariano, a minha resposta sempre foi “maioritariamente vegetariano”, o que às vezes confundia ainda mais as pessoas do que se fosse “apenas uma coisa ponto”.

    A realidade é que me sinto bem a comer em qualidade, seja qualidade nutricional, qualidade ambiental, impacto do produto, respeito com é cultivado e desenvolvido. E assim libertei muita coisa processada.

    Mas de férias no Alentejo quem não quer comer uma carne de porco à alentejana? ou no Porto uma francesinha? hehe

    Temos que saber ter equilíbrio e consciência. Vale mais uma carne de porco alentejana, de um animal que cresceu no campo e teve também ele qualidade de vida, do que continuar a comprar frutas e legumes do outro lado do mundo fora de época.

    • Sara
      Responder

      Eu percebo-te! É tão mais fácil colocarmos as pessoas em caixinhas com rótulos do que estar sempre na dúvida sobre o que são ou deixam de ser… mas a verdade é que somos livres, nós é que nos esquecemos que trazemos connosco a chave para abrir a portinha da jaula onde nos trancámos 😉

      Cada pessoa tem a sua motivação por detrás do que faz, algumas preferem ser veganas mas consomem produtos de toda a parte e possivelmente comidas processadas, outras preferem comer o que é natural e local mas consomem produtos animais, haverá ainda uma minoria de veganos que só consomem produtos naturais, locais e sazonais, enfim, desde que cada um tome decisões com consciência e não “porque sim”, porque é o que os pais/amigos/sociedade ditam, tudo está bem.

      • André
        Responder

        Tal e qual Sara! é mesmo isso.
        Nas palavras do meu sábio avô “se comeres algo a pensar que te fará mal, não vais sequer fazer a digestão!”. Há que aproveitar os prazer de estar a viver esta experiência terrena.

  • Fernando Alves
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    Nada como o livre arbítrio… O problema principal não está no que se ingere, mas no processo de produção associado…

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