É necessário seguir um caminho espiritual?

Que caminho espiritual devo escolher, entre tantas práticas e mestres diferentes e que parecem contraditórios?

 

Qual é o melhor tipo de meditação?

 

Muitas vezes pensamos que para empreender num caminho de autoconhecimento temos que praticar yoga, meditação, ir ao templo ou juntarmo-nos a uma qualquer religião… Apesar de tudo isto poder ser útil, as coisas não funcionam bem assim. Algumas pessoas levam uma vida completamente desastrosa e, de repente, despertam, conseguindo o que outros demoram anos a descobrir ou nem sequer conseguem fazê-lo de todo, mesmo tendo passado a vida em templos, a meditar e a rezar. Por isso, não existe uma regra escrita; embora existam coisas que podem apontar na direcção de nos descobrirmos, como a meditação ou o yoga, estas não são necessariamente as únicas formas.

 

O Despertar Espiritual

 

Todos já tivemos a experiencia de não compreender algo e, ao pararmos um momento, quando menos esperamos “Ah! Já percebi!” Sabes ao que me refiro? De certeza que já te aconteceu. O entendimento ocorre quando a mente pára e volta a funcionar com novos parâmetros. É aí que dizemos “Ahhh!”, é aí que ocorre um despertar, é algo que vem e não podemos controlá-lo.

Gostaria de abrir um parêntesis para salientar que o facto de uma pessoa despertar não a torna especial, não se obtém nada que faltava ou que os outros não tenham, mas dás-te conta de que já possuías aquilo que tanto buscavas e inclusivamente parece-te ridículo como não te deste conta antes; é como quando procurar um objecto que perdeste e te apercebes que afinal o tinhas contigo, de certeza que também já te aconteceu.

Para terminar de falar sobre “o despertar” e entrarmos no tema do artigo – é importante dizer que, uma vez ocorrido, o despertar não é um final em si, na verdade é o principio. Depois vem uma etapa em que há que voltar à vida quotidiana e a mente vai-se alinhando com este novo entendimento. Alguns dizem que esta etapa é a metade do caminho enquanto outros, como Rupert Spira, dizem que é o primeiro passo; são simplesmente formas diferentes de expressar a mesma ideia, o importante é compreender que não é um final, mas falaremos sobre isso noutra ocasião.

 

 

A Religião

 

No interior somos todos iguais mas, ao mesmo tempo, expressamo-nos todos de modos distintos e nenhuma forma de fazê-lo é melhor que a outra, existem tantos caminhos possíveis como pessoas. Embora o Tantra pareça muito diferente do Cristianismo, se virmos bem ambos buscam o mesmo, apesar de seguirem por trilhos separados. Algumas pessoas gostam mais de gelado de baunilha e outras de chocolate e para isso também contribui a influência da cultura em que se nasce; é por isso que cada cultura tem a sua própria forma de expressar a religião. Na realidade, todas as religiões descrevem o mesmo, aquilo que não se pode explicar com palavras.

Pessoalmente penso que, porventura, necessitemos de uma nova religião nesta nossa cultura científica, uma nova forma de expressar a religião de acordo com o nosso tempo, não para expressar nada diferente do resto da religiões mas para dizer o mesmo, apenas utilizando metáforas, mitos e símbolos mais concordantes com a nossa era, já que as religiões de sempre foram muito distorcidas e afastadas do que eram na sua origem. A palavra religião tem origem em re-ligar, ou seja, voltar a unir aquilo que foi separado (embora na realidade nunca se tenha separado)

Porque existem tantas lutas entre religiões? Estas guerras originam-se quando se tomam as coisas pelo seu sentido literal, esquecendo que todas estão a descrever a mesma coisa, incluindo os ateus já que, também eles, levaram as religiões ao pé da letra e vêm discutindo desde então se seres sobrenaturais como os anjos, demónios e deuses existem, sendo que há ainda outros que acham que estes deuses são na realidade anunnakis, reptilianos e existe uma grande conspiração relacionada com eles…

Na realidade, todas estas pessoas estão no mesmo nível intelectual e nem sequer se escutam entre si. O importante não está nas palavras, símbolos, rituais ou o que seja, mas sim na direcção que eles apontam. Mas deixaremos também este último ponto para uma outra ocasião.

A ideia que quero transmitir com este artigo é que qualquer coisa pode servir como caminho espiritual, incluindo coisas que podiam ser vistas como superficiais ou pouco correctas pela comunidade espiritual. De facto, a nossa vida inteira pode ser vista como o nosso mestre espiritual. No Evangelho de Tomé (ou São Tomás, Evangelho que não está incluído na Bíblia) Jesus disse: “O reino de Deus está em ti e ao teu redor (…) corta um pedaço de madeira e aí estarei, levanta uma pedra e encontrar-me-ás”. Essa é a noção de Holograma que se caracteriza pelo facto de cada parte conter o Todo.

 

Escolher O Caminho

 

A prática de tocar um instrumento musical, por exemplo, pode ser considerada como o nosso mestre espiritual, sempre e quando lhe dermos o enfoque adequado, usando-a para nos descobrirmos a nós mesmos. Também nos podemos servir de um qualquer desporto ao nosso gosto ou até das artes marciais pois, apesar de poder parecer estranho para alguns, foi o que sucedeu com Miyamoto Musashi (se quiseres saber mais sobre ele lê “O livro dos 5 cinco anéis”).

Qualquer actividade ao nosso gosto pode servir como anzol para nos conhecermos e crescermos. Exercendo na área que escolhermos, o nosso ego vai ser exposto a múltiplas experiências e poderemos ver facilmente as nossas frustrações, ares de grandeza ou superioridade, sentimentos de impotência, alegria, tristeza, como aprender a ganhar e perder…

Pode ser que alguém se considere o melhor guitarrista do mundo e, de repente, a vida lhe traga outro que saiba mais do que ele de modo a tirá-lo do seu pedestal e, se não for engolido pelo seu orgulho, poderá vir a aprender com isso. Também pode acontecer o inverso, alguém achar que não é capaz de fazer algo e de repente descobrir que conseguia.

O processo de se julgar o melhor ou o pior é mais semelhante do que parece, ambos são processos naturais em que todos nos vemos envolvidos – é o que acontece a quem caminha e é produtivo – coisas acontecem-lhe, de modo a que possa crescer; a quem não se mexe nunca acontece nada, fica tranquilo, mas tampouco está vivo já que estar vivo é caminhar.

Tentares compreender a tua área de eleição também irá criar dúvidas: no meu caso, através da música descobri que esta consiste em gerar contraste entre sons e não nos sons em si mesmos. Uma nota isolada não conta para nada, mas uma nota num contexto de muitas outras notas pode expressar bastante. Isto explica perfeitamente conceito não-duais porque, por exemplo, consideremos uma pessoa que mede 1,85 mt: comparativamente a uma pessoa com 1,60 mt é bem mais alta, mas se a compararmos a alguém que meça 2 mt esta mesma pessoa passa a ser consideravelmente mais baixa, ou seja, tudo depende do termo de comparação.

A palavra Maya, comummente traduzida como ilusão, na realidade significa medida; a ilusão cria-se ao medir, já que as coisas só se percebem ao medir. Na famosa experiencia quântica da dupla fenda concluiu-se que quando alguém observava os eletrões a serem atirados contra a parede e, portanto, fazia uma medição, os resultados eram diferentes de quando ninguém estava a ver – se te interessar podes encontrar facilmente esta experiência na internet, de modo a não me esticar demais na explicação.

 

 Continuar a Caminhar

 

Por fim, retorno à questão que coloquei inicialmente, porque é que algumas pessoas despertam repentinamente sem terem meditado um dia na vida?

O despertar acontece quando o ego se entrega, deixa de lutar contra a vida, e isto pode ocorrer sem se estar obrigatoriamente num caminho espiritual, embora, na maioria nos casos, vão ocorrendo pequenas compreensões aos poucos e poucos e, num momento inesperado, dá-se a entrega. Não é porque meditas 10h por dia que vais necessariamente descobrir mais do que alguém que nunca o fez; uma grande crise pode abrir a porta para a autodescoberta e causar uma mudança repentina.

Com isto não quero dizer que meditar, praticar yoga, mantras, ter rituais, rezar, ir ao templo… sejam errados. Na verdade, eu medito diariamente e faço outras coisas relacionadas com isso, o que quero dizer é que abordar estas práticas de forma errada pode torná-las absurdas mas que, quando feitas de uma perspectiva correcta, podem servir-nos perfeitamente.

Muita gente tenta controlar a sua mente, corpo e emoções quando o que se busca realmente com estas práticas é a percepção de que não se está no controlo, de que a sua vontade, na verdade, não é sua mas sim a vontade de algo maior: Deus, o Universo, Brahman… como preferires chamá-Lo/a, porque não tem nem género, nem forma, nem nada que possas expressar em palavras: 

 

Na realidade somos Isso, Isso único e incomparável.

 

É possível que um dia te canses de controlar tudo e te permitas relaxar e, nesse momento, vejas aquilo que não podias perceber. Muitos mestres tentam prová-lo deste modo. E, no final, dás-te conta de que tudo estava bem desde o principio, aquilo que buscavas estava contigo e em tudo desde sempre; foi aí que teve origem a religião.

Então afinal porque devemos seguir um caminho? Porque ele aponta uma direcção e também porque, uma vez produzido o despertar, é necessário retornar à vida quotidiana e a mente terá que reordenar-se com esta nova visão e isso é mais fácil para alguém que estava num caminho do que para alguém que despertou repentinamente.

Deixo-vos com dois ditados que, apesar de parecerem contraditórios, se complementam:

 

Deus ajuda quem cedo madruga.

Nem por muito madrugar amanhece mais cedo.

 

2 comentários
  • Patrícia Zen
    Responder

    Muito bom! Obrigada por este artigo Atrey e Sara! “Qualquer coisa pode servir como um caminho espiritual”. É curioso como o ser humano andou tanto tempo à procura da sua individualidade para depois querer continuar a fazer igual a toda a gente. Tiro a chapéu a quem sai do rebanho da carneirada e tem tomates de seguir o seu caminho.

    • Sara
      Responder

      Como tu costumas dizer, e bem, a moda é cíclica… Esperemos estar na onda que vem fazer a diferença e inverter esta tendência.

Deixa um Comentário

Start typing and press Enter to search