Feito É Melhor Que Perfeito

Por Sara

Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende.

Leonardo da Vinci

 

 

Eu adoro aprender, a sério. O meu ascendente em Sagitário não me deixa mentir nem me deixa parar de procurar saber mais e mais, sobre os mais diversos assuntos. O meu avô acha que eu sou uma espécie de “mulher-orquestra”, porque quero aprender a tocar os instrumentos todos ao mesmo tempo, mas que assim nunca vou aprender a tocar nenhum convenientemente. Eu não me importo.

Eu gosto de ser a “mulher dos sete ofícios”, de saber de tudo um pouco, e deixar que seja essa variedade de saberes a moldar quem eu me torno. Eu sei que viemos a esta vida para experienciar, como quem entra numa gelataria enorme e prova um arco-íris de sabores. Viemos saber o sabor da vida.

Esta minha visão mais abrangente e horizontal da existência torna-me um “pau para toda a obra”, diferente de quem escolhe focar-se numa só área e afunilar os conhecimentos de modo vertical até se especializar em determinado assunto. Não ponho em causa que ambas as opções são válidas e preciosas e que cada um de nós seguirá o caminho mais adequado à aprendizagem terrena que veio ter.

No entanto, a sociedade, e a educação em particular, ainda estão pensadas para reproduzir funcionários modelo para a fábrica do Charlie Chaplin. Somos encarreirados no ensino mal deixamos as fraldas e, desde logo, os professores andam de fita métrica na mão a medir as nossas capacidades. Ao que parece, este filme é de longa metragem porque agora já não basta ter-se uma licenciatura, é preciso ter um mestrado, um MBA ou uma outra qualquer sigla que eu desconheço, porque entretanto deixei de acompanhar as tendências desse mercado.

“O saber não ocupa lugar”, ” O conhecimento nunca é demais” ou “O bom é inimigo do óptimo” espelham os valores de exigência e competitividade que nos são passados e incutem-nos mitos como a existência da perfeição. Esse mito gera o medo, que por sua vez gera a crença limitadora de que nunca se é bom o suficiente.

 

Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes.

Leonardo Da Vinci

 

Ignorance is bliss

 

Quem pouco sabe, não sente o peso da responsabilidade do que faz e age sem pensar duas vezes. Quanto mais sabemos sobre um assunto mais noção temos sobre a magnitude do que ainda desconhecemos. Quem muito sabe acautela-se, resguarda-se, estuda “só mais um pouco” antes de dar um passo que seja. Cala-se quem sabe e fala quem ouve – um pouco aqui, um pouco ali, imita o que viu fazer, sem conhecimento de causa. Quem muito sabe, pensa duas vezes. E três e quatro e… Não salta. Não está pronto, ainda. 

Mas a perfeição é uma armadilha do ego. Porque nunca, jamais, iremos conseguir saber tudo o que há para saber sobre um determinado tema antes de agirmos. Além disso, qual é a graça de fazer/ser perfeito? A palavra “perfeito” significa “completo”. Se o que tu fazes está completo… que mais fica a faltar para fazeres? Não será saudável mantermos um certo grau de insatisfação que nos leve sempre a tentar fazer mais e melhor? 

A solução está, como em tudo, no caminho do meio. Está em munirmo-nos de conhecimento em várias vertentes complementares, termos curiosidade e espírito de investigação, ou seja, fazermos o “trabalho de casa”, por nós e para nós, e não para obtermos algo, nomeadamente um papel para pregarmos na parede. E, o mais importante, desenvolvermos o nosso amor-próprio, autoconfiança e aguçarmos a intuição, para que, quando o momento surgir, não tenhamos medo de saltar… nem de cair.

Tem a coragem de ser imperfeito. Eu reli este texto vezes sem conta, estará perfeito? Não. Mas saiu da gavetinha da minha mente e está agora a circular. E quando sai da tua cabeça começa a gerar resultados. E esses resultados geram comunicação, interacção, melhorias. Falhar não é a pior coisa que te pode acontecer. Arrependeres-te de não teres tentado, sim.

 

2 comentários
  • Patrícia Zen
    Responder

    Identifico-me com o saber um pouco de tudo. Há quem diga que temos de ser especialistas em algo para sermos valorizados. Talvez profissionalmente seja assim mas não consigo, há tanto para aprender!

    Fizeste-me lembrar também aquela célebre frase da Profª Lúcia Helena “conhecimento é compromisso. Depois que sabes uma coisa, não te podes fazer de indiferente, nada será igual.

    Quando estava a estudar achava que precisava saber tudo mas um dia disseram-me “nunca vais saber tudo, não de cor, mas hás-de saber onde procurar a informação quando precisares dela” e é verdade. Se estivermos à espera de saber tudo… e há muitas coisas que só se aperfeiçoam com a experiência do fazer, mais do que saber.

  • Joana Silva
    Responder

    Gostei muito e partilho de uma visão bem idêntica. Claro que tentando conhecer um pouco de vários assuntos, procuro saber o suficiente para também transmitir a informação correcta; simplesmente várias áreas que procuro aprofundar
    Obrigada por isto

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