Os Incomodados Que Se Mudem

Por Sara

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 Fonte: Quino

Este, como tantos outros provérbios portugueses, é uma autêntica pérola de sabedoria inexplorada. É rotineiramente interpretado como “se o pessoal na mesa ao lado está a fazer muito barulho, levanta o traseiro e muda-te para outra mesa”. E quem diz trocar de mesa diz trocar de casa, de emprego, de parceiro, de dieta, de, de, de. Esta inquietude, que revela uma profunda insatisfação, não pode ser resolvida por uma relocalização geográfica. De mãos dadas com este dizer deveria andar o “podes fugir mas não te podes esconder”. Porque os problemas virão atrás de nós. E porque é que isso acontece?

Nada nesta realidade é inerentemente bom ou mau. Nem pessoas, nem objectos. O monge e professor budista Gen Rigden gosta de usar o exemplo do pastel de nata: algumas pessoas adoram pastéis de nata e outras não. Isso significa que o pastel de nata em si não é nem bom nem mau, depende da perspectiva de quem o vê (“a beleza está nos olhos de quem vê”). Quem diz um pastel de nata diz o João, a Maria, o emprego X, etc.

Assim, se olharmos a realidade através de um olhar amoroso e compassivo, a realidade será amorosa e compassiva. E, mesmo que não seja, estará tudo bem. No entanto, se continuarmos a ver a realidade sob o mesmo prisma, podemos ir viver para o Japão, rodeados de desconhecidos, que as circunstâncias que nos incomodavam irão ressurgir na nossa vida e continuar a atormentar-nos.

“Se estás mal, muda-TE” significa que se estás descontente com alguma coisa/pessoa/situação o que tem de mudar é a TUA ATITUDE. O que te persegue não são as situações, tu não és uma vítima e os problemas simplesmente vão ter contigo: o “problema” está na tua mente. E essa é a bagagem que vais transportar de um dia para o outro, ou até de uma vida para a outra. Aprender a lidar com aquilo que nos causa dificuldade é o que viemos cá todos fazer – ultrapassar limitações, resolver karmas. Aprender a “lidar com” ao invés de “ir contra”, “ir à volta” ou de nos escondermos num buraco.

Mas como mudar? Contemplando esta questão e atingindo o ponto em que a compreendes não apenas de um modo intelectual mas eu diria mesmo fisicamente, como se se desse um clique tão profundo que te chega a cada osso, a cada neurónio. É preciso chegar à realização de que não só não podemos fugir do que nos incomoda como também não podemos mudar os outros nem as circunstâncias à nossa volta – essa necessidade de controlo externo é um trabalho a tempo inteiro, extremamente desgastante e infrutífero, sem resultados duradouros e que, em última análise, revela falta de controlo interno.

Para chegar a esse profundo entendimento é necessário reflectir de um ponto de vista livre de julgamentos, meditando. Meditar não é esvaziar a mente; meditar é a experiência de escolher não se deixar levar pela torrente de pensamentos que todos temos. É observá-los de fora e, conscientemente, permanecer desapegado deles, e deixá-los ir. Escutei recentemente que uma emoção só tem a capacidade de permanecer no nosso corpo durante 7 segundos – se permanecer mais do que isso é porque estamos a alimentá-la com os nossos pensamentos. Por isso é que devemos focar-nos no melhor da vida, dos outros. Não porque pomos uns óculos com lentes cor-de-rosa e recalcamos o que nos causa sofrimento mas porque sabemos que o único foco de sofrimento que existe são os pensamentos deludidos que alimentamos na nossa própria mente. Isso não invalida que, após uma profunda auto-análise e auto-conhecimento, chegues à conclusão que deves mudar de cidade, emprego, parceiro, dieta, de, de, de. Mas não como mecanismo de fuga. Não porque algo te incomoda mas sim porque, após dissolveres os incómodos mentais, compreendes que algo não te serve mais e que é necessário alterar o trajecto de forma a melhor servir o propósito que tens a cumprir. Muda a tua mente e mudarás o teu mundo.

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