Os Vegans São Condescendentes e Fundamentalistas

Por Sara

A palavra vegan  atingiu o estatuto de palavrão. Se alguém nos apresenta como sendo veganos a outra pessoa fica logo de pé atrás, como se tivéssemos uma doença contagiosa e, em vez de nos encolhermos no nosso canto quietinhos, decidíssemos ir para o meio do Colombo, na véspera de Natal, desatar a tossir para cima de toda a gente – o risco é grande, o perigo é real!!! A ameaça eminente que uma simples palavra pode despoletar em alguém é um espectáculo digno de se assistir com pipocas.

 

*Flashback*

 

Durante os meus quase 30 anos como omnívora (leia-se, carnívora) sempre achei os vegans um bando de paternalistas. Os vegetarianos eram fixes – embora eu jamais conseguisse ser como eles por causa do meu completo nojo por vegetais. Tinham uma alimentação saudável e eram amigos dos animais… Uns bacanos, quem me dera ser como eles! Já os vegans, essa cambada de exagerados, fundamentalistas, quem quereria ser assim? Alguém devia pô-los no lugar deles.

 

*Fim do flashback*

 

O ser humano procura, e é naturalmente atraído, pela semelhança. Existe uma inclinação, inconsciente, para nos identificarmos com tudo aquilo que valida as nossas próprias crenças. Mas contra factos não há argumentos. Ou há?

Perante uma qualquer história, em que a palavras estão assentes e imutáveis (como este texto, por exemplo), haverá tantas interpretações quantas as pessoas que a lerem, porque cada um tem o seu ponto de vista pessoal e intransmissível, e cada um irá retirar dali aquilo que confirma as suas convicções e descartar o resto. Mais que não seja, irão dizer que a autora estava louca. Onde é que eu quero chegar com isto?

A mudança é assustadora e os humanos são criaturas de hábitos (entenda-se, modos de funcionar automatizados que não requerem que estejamos conscientes do que estamos a fazer). Tudo o que fuja ao seu modus operandi dispara os sensores e alarmes internos e o alerta vermelho fica activo – entram em modo de sobrevivência. E depois é a história do costume, a melhor defesa é o ataque. As críticas (e as súbitas preocupações com a nossa saúde e bem-estar) escondem inseguranças latentes que a mente consciente não sabe pôr em palavras:

 

Porque o fazem? Devem ter um forte motivo. O que sabem que não sei? Isso significa que se passa algo de fundamentalmente errado comigo? Algo que ainda não estou pronto a mudar ou sequer a encarar?

 

Excepções (e dramatismos) à parte, o preconceito contra os veganos é real e, tal como se passa com todos os preconceitos, tem origem num lugar de ignorância e medo. A palavra vegan simboliza a mudança, profunda e sincera, de alguém que decidiu transformar radicalmente o seu quotidiano em prol de algo maior.

O meu propósito, e o da maioria dos vegans que conheço, é inspirar e espalhar uma mensagem de amor e compaixão por todos os seres, mostrando que há outras formas de viver que até são mais agradáveis do que se pensa. Mas somos recebidos com uma atitude fechada, uma língua afiada e um secreto desejo mórbido de nos ver fracassar e enfraquecer para poderem dizer a mais deliciosa conjugação de palavras conhecida na humanidade: “Eu bem te avisei!”

Tendo estado em ambos os lados da barricada posso afirmar que sim, os vegans são fundamentalistas – não há forma de “matar só um bocadinho” um animal ou *sufocá-lo com beijinhos*; e sim, os vegans são paternalistas – como dar a conhecer um mundo melhor sem parecermos donos da verdade?

E se esta longa dissertação soou a um aborrecido sermão condescendente de mais uma angry vegan, ups, talvez me tenha tornado num deles.

 

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PS: Sem ressentimentos, nós também gozamos com vocês.

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